sábado, abril 08, 2006

Há ou não há, e ponto final

O amor é um teste americano
Autora:
Ana Sá Lopes ana.s.lopes@dn.pt


Diário da Vanessa
O amor é um fenómeno extraordinariamente simples. Como um teste americano:
a) Há
b) Não há

A atracção, também ela, é óbvia:
a) Há
b) Não há

Sobre a paixão, não deveriam restar quaisquer dúvidas sobre a sua evidência manifesta.
a) Há
b) Não há

Infelizmente, um grande número de pessoas empenha-se em complicar a vida, para depois poder repetir com ênfase que a vida é complicada. Prazeres mórbidos. É o caso da minha amiga Vanessa, que, à conta da tortura da confidência, fez de mim uma das mais experientes conselheiras sentimentais do país. Ainda que agora, depois de tantos anos de prática, eu responda sempre da mesma maneira:
a) Ou há
b) Ou não há

A tortura da confidência sentimental tem um objectivo implícito: obrigar alguém a dizer o que nós queremos ouvir. - Mas tu não achas? Estes sinais, por exemplo, não achas que querem dizer qualquer coisa?Eu, dantes, ainda respondia
a) Talvez
b) Não sabe/não responde.

Só para a consolar (por um lado) e escapar à tortura da confidência mudando de assunto (por outro).Mas há uns tempos acabei com isso.Quando ela me pergunta:- Mas tu achas o quê? Eu tiro do bolso o teste americano e, se houver mesa, pouso-o. Já lhe arremessei, num dia mais impaciente, o teste para o colo. O teste, por falta de pontaria, já lhe acertou no queixo. Uma vez, uma corrente de ar fez esvoaçar o teste, que se perdeu no rio, mas isso é raro. Eu atiro o teste e repito firme:
a) Há
b) Ou não há

Ao princípio, ela resistia e murmurava que as pessoas "não eram todas iguais". Que os homens eram complicados. Mas penso que já me dá razão e pelo menos há duas semanas que não me faz perguntas. Se não há perguntas, pode haver uma explicação:
a) Há.